Me falta coragem. Jamais pensei dizer isso a mim. Talvez hoje eu tenha mais coragem que em qualquer outro momento de minha vida. Hoje sou outro, um covarde. Não há imagens em minha cabeça, nenhuma palavra em minha boca, nenhum propósito, nada. Tinha uma visão da vida, que se fez em pedaços; não era mais uma visão de adolescente apaixonado ainda sem forma definida, o qual esta impresso no livro único que escrevi. Se me perguntassem hoje, onde deixei meu olhar, não saberia dizer. Vivo uma espécie de torpor, de dor silenciosa, de ausência. Sei que estou ali, diante de mim, ao alcance de minhas mãos, porem não arrisco toca-lo. Existe algo de indestrutível nesse outro, existe algo de indestrutível em todos nós, Kafka me mostrou isto, porem o meu indestrutível dorme, cilente, distante, alheio a mim. O que sobrou nessas linhas não foi muito, não tem raízes no âmago da terra, não tem sombra, não toca o ar com a ponta dos galhos, o que resta aqui é a duvida, o medo, a violência, a fraqueza, a ausência; um oco de madeira podre, onde nascem escorpiões e brotam serpentes cegas e cheias de dor. Há um pulsar desencontrado nessas linhas, um choque entre as palavras, uma cacofonia ensurdecedora que agride meu pensamento.
Mas algo ainda me faz feliz.
Minha vaidade se fez patética diante a luz do dia, e todos a viram, inclusive eu. Minha visão não é mais a única, e sempre existirá alguém que fará o que faço, melhor do que o que faço, que dará ao mundo uma potencialidade de beleza que ainda não dei, que recriará um pedacinho do paraíso com maior fidelidade, que levará a alma ao supino topo da montanha, de onde ela verá com maior lucidez a beleza do vale e suas sombras, suas luzes.
Algo ainda me faz feliz. A terra será o ultimo estomago a me digerir, aquele que fará acordar o indestrutível que dorme, que levará meu nome no silencio e fará desaparecer a memória de meu rosto.
Talvez eu já esteja tecnicamente morto, porem algo me deixa sereno, distante do barulho da verdadeira morte dos que andam a luz do dia: eu não preciso mais acreditar. Eu acredito.
Já vi aquilo que tanto ansiei ver, já ouvi suas sandálias silenciosas atravessarem o corredor de minha existência, o vi passar feito uma ave festiva no calabouço da medíocre incerteza vazia do meu ceticismo. Não tenho respostas prontas, mas também não tenho mais perguntas a fazer. Estou tecnicamente morto, e é mesmo verdade que morrendo, se vive na eternidade. Tenho poucas certezas, mas não careço de dividi-las, nem de convencer ninguém, nem mesmo a mim.
Algo ainda me faz feliz. Perdi a muito o método, e encontrei um grande método na falta de um.
J.
Cumpadi.
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Eu mesmo
Haha, BlackNigith.
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Black is beauty.
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Eu mesmo
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